segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Pólvoras e Sangue - Capítulo 3 - Uma Fuga Planejada

Carla desliga as pressas seus computadores, corre para a porta. Ela volta, risca rapidamente em um papel a sua frente vários números e o guarda num envelope. Tecla alguns números decorados no celular, uma mensagem aparece, ela espera, e mais outra, “nem tudo está perdido”. Ela apanha a chave de sua Ducati Streetfighter e sai pela porta dos fundos não antes de ouvir alguém arrombando a da frente. 
 
Não há tempo, não há tempo”, ela repete para si mesma. Um Vectra 2.6 liga o motor quando ela passa com sua motocicleta. “Farei eu, meu tempo”.

O sol acabara de se pôr. Pelas ruas de Brasília, ambos automóveis partem em disparada. Nenhum pode exceder os limites de velocidade. Será um jogo de quem aguenta mais. A Esplanada dos Ministérios, o Vectra em seu retrovisor. Eixão e Asa Norte, uma passagem de pedestres subterrânea, “aqui eles não poderão me seguir”. Alguém a xinga. Por um tempo, Carla acredita não ser perseguida mais. Por um tempo…

Pela DF-140, o Vectra atrás. “Esses malditos devem ter plantado um sinalizador em minha moto”. Ela ganha a GO-521, sentido Luziânia, uma estrada de chão. Nada de bom para sua esportiva, cascalhos voam acertando a carenagem e a lente de seu capacete.
Mesmo escondido pela poeira e pela noite, ela sabe que o carro ainda está em sua cola. Um disparo de uma arma de fogo, ela acelera ainda mais, “preciso ganhar tempo”. Ela atinge a velocidade máxima. Uma plantação de soja, então resolve despistar, quebra a direita e invade a plantação.

Um velho sobrado abandonado à frente. Carla encosta sua moto aos fundos. Um molho de chaves, depois de várias tentativas, uma cozinha se revela. Após ter examinado todo o ambiente, ela tira do bolso da calça um envelope branco e deita no chão por debaixo de uma mesa, ali, ela o fixa com pequenas frestas de madeira. “estará a salvo, por enquanto”.

Sobe para um dos quartos, fotos nas paredes, a levam a um tempo reconfortante. Ela volta de sua fugaz introspecção – uma varanda com estacas detalhadas de madeira. Ela saca sua pistola e se prepara para atirar. É viver ou morrer.

Longe, o carro rasga a plantação, para de frente para o sobrado depois de uma freada brusca, da poeira, três homens saem. Ela usa novamente o celular. Disparos de Uzis. “Por que eles têm Uzis e eu uma Ponto Quarenta? Dá pra aguentar”. Por um momento, ela acredita que eles a querem viva, muda de ideia. É um extermínio. “Será que conseguirei falar com Stephanie?”

Dois homens correm para trás do sobrado. Em pouco tempo estará cercada. “Devo parar de brincar”, ela pensa. Um disparo acerta um pneu seguido por outro que estraçalha o para brisa e a garganta de um. Sangue nos vidros. Por um momento os disparos cessam, por um momento.

Passos vindos de dentro do sobrado. Não se ouve mais, o som das hélices de um helicóptero o abafa. Ele pousa entre ela e o carro. Mais dois que estavam no carro caem no chão enquanto os outros dois que vinham por detrás disparam. Ela pula a janela, uma bala zune em seu ouvido. No salto, ela sente o tornozelo esquerdo, mesmo assim, ela corre. O helicóptero dá a partida e ganha novamente os céus.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Linhas de Um Tempo Esquecido - Capítulo 2 - Início

O que se segue é o resgate de memórias e de velhos diários escritos por meu primeiro mentor, o Senhor Mímir Abmael Hastan, o mesmo que outrora eu chamava de pai. Um quebra cabeça de informações de peças sobrando. Todo esse resgate foi possível quando um velho professor do qual não me recordo o nome, ensinou-me a fina arte da leitura mental e dos traços impressos em objetos inanimados. Embora, ao passar dos anos, as verdades surgiam e pesaram, nunca deixei de procurá-la. Deverei, então, contar a história do ponto em que conheço para o ponto de partida.
Tudo começou quando encontrei em um baú de Hastan uma caderneta velha dos tempos em que se escreviam com penas, mas hoje vejo que a primeira pista está ali. Pela caligrafia, pertencia a meu pai. Nela, uma história que nunca entendi, aliás não dei muita atenção. Depois que tio Tufail nos deixou e partiu mais uma vez para exilio, Hastan resolvera viajar pela Europa. Eu entediado, Morpheus reclamando de que não brincávamos mais com os cavalos... Tempos difíceis. Desculpe-me. A caderneta recuperei com muito sangue e ouro, mais sangue do que ouro e linhas que merecem um livro próprios. O que importa é que agora passarei os relatos ipsis litteris. Algumas páginas foram rancadas. Outras rabiscadas. Outras, manchadas por algumas lágrimas caídas de meus olhos.




15 de abril, 897
Ouvi rumores de um assamita interessado em mistérios de nossa raça. Estranho isso vir de alguém de sangue tão fervoroso. Meus estudos acerca do ocultismo de certo, esbarram-se em fragmentos preconceituosos. Os mouros expulsos por Pelágio das Astúrias parecem que se espalharam pelo resto da Europa. Esse assamita frequenta as tavernas próximas à Verdun, ele porém não se interessa muito por sangue, visto que as pessoas ali estão saudáveis. Será que encontrarei alguma pista que me ajude em minhas questões religiosas?


18 de abril, 897
Cheguei a Verdun a dois dias. A mistura de raças e cor de pele chega a enjoar. A rota comercial e a gritaria diurna não me deixam dormir. Cheiro de cavalo e estrume invade meu nariz e me deixa tonto. Na taverna abaixo, um barulho ensurdecedor. Foi necessário esse esforço. Sento-me a uma mesa de frente a porta e espero o vampiro mouro adentrar. Não demora as portas se abrem, pele escura e roupas escuras, roupas não, trapos como se fosse um tecido inteiro enrolado. No rosto, uma marca, parece-me letras islâmicas, olho negro. O outro, uma bandagem cobre o que julgo uma órbita vazia. Cheiro almiscarado no ar. É ele. Ele se senta, faço um sinal.


Aqui, uma folha rasgada. Mas continuemos, na próxima, o contexto será de fácil entendimento:

Linhas de Um Tempo Esquecido - Capítulo 1 - "Eu Sei Quem Somos"

Eram vastos os corredores e altas as janelas do castelo. O sol entrava manso, refletindo imagens dos santos dos vitrais no frio e duro piso de mámore, as gárgulas já tinham perdidos suas feições grotescas, tornando-se gradativamente uma massa disforme de granito, e todos dormiam. À epoca, os mordomos iam e vinham como um estalo de dedos, mas a figura refletida nos espelhos permaneciam sempre inócua. As folhas das velhas árvores caiam e floriam como se fosse no mesmo dia, as caçadas transformavam-se em lendas, lendas em contos e contos em piadas, e todos dormiam. Eu não compreendia ainda as nuances da mortalidade tampouco o mistério do passar dos tempos. Anos se passaram (muitos na verdade) e acabei por envelhecer. Foi quando Hastan voltou de sua longa viagem e alguns acordaram.


Hastan trazia em sua bolsa tiracolo livros e brochuras repletos de desenhos estranhos e letras de alfabetos nunca vistos. Não me estranhei com isso – era sempre assim as suas voltas, o que estranhei na verdade foram os objetos. Livros e brochuras no lugar de sensíveis papiros que se desmanchavam com o tempo e principalmente com o suor em sua testa e com seus olhos de medo. Quando ele voltou, eu já havia recuperado das memórias dos velhos mordomos lembranças vividas há décadas, mas esta é uma outra história. Quando Hastan voltou, partimos.


Durante anos privaram-me de meus vitrais, janelas e gárgulas, de meu piso de mármore, do velho bosque e de seus demônios. Privaram-me de meus amigos. Em troca, ganhei ratos, piratas, doenças, toscos caixotes de madeira e solidão. Hastan dizia que era necessário, afinal, eles acordaram. Alguns nomes eu decorei, outros fiz questão de esquecer, tantos outros naufragaram. Já, os melhores navios aportavam em grandes burgos. Até que Gengis Khan nasceu e morreu e a Morte Negra flagelou a Europa. "Não é nossa culpa", dizia Hastan quando meus olhos pesavam sobre os seus. "então por que temer?", eu perguntava. Eles acordaram.


Morpheus sempre reclamou de minha falta de atenção por sua pessoa. Também pudera, ele escarafunchava papiros antigos e diários de alquimistas como traças. Seus olhos levantavam apenas quando tio Tufail trazia de suas expedições orientais "presentinhos" excêntricos, até que ele resolvera parar de reclamar. A verdade é que passado quase um século, ouvi novamente a voz de meu irmão Morpheus. Essa também é outra história. Lembrei-me de Morpheus porque ele representa a ignição principal desta história.


Sem mais delongas e passado este réquiem, lançarei meu último recurso para entender as primeiras palavras de Morpheus em anos e suas últimas para comigo. "Eu sei quem somos", ele disse naquela noite em que entrara em meu quarto. Assustei-me a princípio, e enquanto se virava, deixava o quarto e iniciava novamente seu silêncio, eu entendi o que representava suas palavras. Por anos meu irmão Morpheus estudava nossa espécie. Por ele e por mim. E eu olhava o tempo passar pela janela. Ele fazia por nós e eu o odiava por ser daquele jeito. Ele sabe quem somos e eu deverei percorrer os mesmos caminhos por ele percorrido e, assim, ouvir sua voz novamente.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Pólvoras e Sangue - Capítulo 2 - Identidades

_ Os testes começam semana que vem. – alguém diz no corredor enquanto André caminha lentamente ainda pensando na última aula. “As pessoas não gostam de sabichões”, diz Stephanie. André notara no slide à frente a foto de Schopenhauer, mas as teorias eram de Kant. Como não notar perfeita discrepância, “mas corrigir a professora na frente de todos, André?”, Stephanie chamava-lhe a atenção. E outra aula começa e termina. Um calado piloto automático.


A Academia estava se tornando um martírio para André. De longe, ele era o melhor aluno. Nas aulas teóricas, seu pensamento abstrato surpreendia a todos, nas de tiro, uma pontaria invejável, nas de luta, sua falta de aptidão física era encoberta por sua força de vontade. Isso no começo, agora André se mantinha calado e distante.
Era um teste de aptidão intelectual simples. André fora o primeiro a entregar e todas as suas respostas estavam certas, no entanto, Mateus ganha o prêmio. Ele não reage bem, rasga as folhas do teste e lança os pedaços na cara de um dos professores.
André começa a se arrepender de ter entrado na academia, mas, como dizem, ninguém rejeita a Academia. Torna-se mais introspectivo, atitudes grosseiras. É chamado na sala de Morgana.
_Preciso de você bem mais que possa imaginar. – diz Morgana ao ver André entrar.
_Por que eu, o pior aluno desta turma?
_Pensei que você perceberia que tudo na Academia é um teste. Pois bem, você será expulso e mandado para um programa secreto de espionagem. Deverá espionar os Agentes. Seus próprios amigos.
_O treinamento é intitulado de “Sombras”. Você deve criar outro personagem, investigá-los. Tirar todas as informações. – Diz Morgana.


E assim foi feito, André não tinha escolhas.


André limpa seu armário, faz as suas malas e despede-se de ninguém. “Mas ninguém abandona a Academia”, alguém dizia, “foi ele que jogou as folhas na cara de Estevão”, e André disperso a tudo. Noite clara de lua cheia, noite péssima para a caça, a Academia suas costas. Ele embarca em um Civic preto sem olhar para trás.
Dentro do carro, Morgana atrás do volante e mais ninguém. “As aulas já começaram e você se saiu muito bem em sua primeira missão”, diz Morgana e nada mais fora ouvido, até que, depois de três horas, o carro para. Uma casa dessas de bairros oligárquicos, com varanda, terreiro, plantas e cercas.
_Mandarei algumas mulheres para você, André. Pode deixar, eu sei seus gostos.


André fez questão em não mudar de nome mais uma vez, apenas seu comportamento, agora, era um vizinho simpático e prestativo. Incursões pelo bairro, escutas clandestinas, roubos de correspondências e cruzamento de dados e em uma semana conhecia todos os moradores, relacionamentos extraconjugais, segredos familiares e tantas outras coisas que guardamos entre paredes.


Três meses depois de sua última visita, Morgana na porta.
_ Não sabia que sentia tanta sede.
_Pede alguém para limpar essa bagunça.
_Um bom trabalho tem feito, André. Sente-se só?
_Muito. – Lacônico. Algumas mulheres no chão. Latas de cervejas e carreiras de cocaína ainda intactas.
_Jura? E eu que pensei que preferisse trabalhar sozinho. Um lobo solitário. Enganei-me contigo.
_Na verdade, eu também não sei mais quem sou, qual personagem interpretar, o que sentir...


Silêncio


_Que bom saber que você está se virando bem. Vou ser direta então. Tenho mais um trabalho para você e este será o último de seu treinamento. Você deverá seguir uma pessoa. Um Agente, na verdade. O nome deste Agente, e para dificultar, o nome verdadeiro deste Agente está neste envelope. – Um envelope simples, destes de cartas sobre a mesa. _ E, para o sucesso desta missão, você não deverá ser reconhecido.
_Sem perguntas, mil respostas.


André não espera. Ele vai ao banheiro, raspa o cabelo e a barba, um óculos sem graus, põe sua mochila nas costas e fones de ouvido. Um disfarce perfeito. Ele sai. Passa pelos fundos de sua casa. O carro à frente, a vítima no telefone, ele espera, o carro parte. Sem problemas. Ele olha no celular, um ponto pisca em um mapa. Caminha mais um pouco, agora até um ponto de ônibus. A noite de lua nova encobrirá seu disfarce.


A cidade permanece a mesma coisa. As pessoas passam aqui e ali, fazem suas compras felizes, caminham com seus animais de estimação, namoros às escondidas, prostituição e drogas. A orla, à esquerda, corpos sarados, à direita, condomínios fechados e a tenra falsa sensação de liberdade e segurança. “Qual será o verdadeiro mundo, o meu ou o deles?” André dá o sinal. O ônibus freia e ele desce. Ele nunca olha para trás.


Atlântica Ville.
Ele acena para o segurança, como velhos amigos.
Apartamento 403.
O trinco se abre e ele senta numa cadeira de frente a porta e espera ela chegar.


Morgana abre a porta, um jovem sentado em sua cadeira. Será um assalto? Não. É André. Ela ri, pois tem feito um bom trabalho.


Como sempre André deu o melhor de si. Foi um ótimo aluno, mas não se esqueceu das mazelas que sofrera na Academia.


Isso tudo aconteceu há cinco anos. Agora ele se encontra em Confins observando Stephanie.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Versos Perdidos - Capítulo 3 - Tudo Tem Seu Preço 2



Na boca, ainda o gosto de sangue, ele me disse certa vez. Lavignia proporcionou-lhe uma linda história de amor, pena que durou apenas uma noite e alguns reais. A doce morena não possuía meios-termos. Tudo ou nada. Dinheiro na mão e sangue escorrendo quente pela garganta. Parecia que ela gostava da dor e do êxtase do pulsar sanguíneo. P a encontrou certa vez à orla prestes a se matar. Pais assassinados, deixaram como herança dívidas de drogas. Ela seria um futuro rebanho.

Sangue fácil, dinheiro fácil, drogas fáceis. Tempos difíceis estes.

A cidade, decadente. Ruas vazias, chuvisco e jornais velhos. Um gato derruba uma lata de lixo. Nos tempos do Príncipe Scott isso não acontecia. Não que ele fosse o que se chama de príncipe exemplar, mas, suas rédeas firmes seria o remédio para esse bando de rebeldes sem causa. Há cinco anos, um substituto de Príncipe promove, com sucesso a baderna e a imoralidade vampírica. "Me apresentar. Não quero me apresentar, ele que venha aqui em meu bairro se apresentar", Pensava P, a respeito do substituto.

Naqueles dias, tudo o incomodava, mas Lavignia é que fazia seu velho coração palpitar. Ela desaparecera depois daquela noite de amor. Sua última alternativa de encontrá-la, visitar o Delamaday. Um tipo de boteco e puteiro. No tempo de Scott, um ponto de encontro e estratégias contra um mal palpável e sempre presente. P estava lá, encostado, soslaio, fingindo que fumava um Marlboro, olhos atentos notaria a falta de trago e os olhos perdidos. Aproximo-me:
_Precisa de dinheiro?
_E por que não?
_Aqui. Um endereço. No terraço, velhas caixas e quinquilharias, uma revista do “Batman: Vigilante de Gotham”, número 34. Duzentos, eu te pago.
_Feito.

Sim. Direto e lacônico.

Essa foi a primeira noite em que nos encontramos. Nas demais que soube que ele não estava lá como um mercenário posto em uma vitrine. Falou-me da necessidade de proteger o "bairro", de que quando me viu pela primeira vez, não sabia se eu era um Tremere, um Ventrue ou um Toreador, mas que se dane, tudo a mesma merda. Falou-me dos estranhas pichações e principalmente de Lavignia. Isso tudo bem depois. Voltando um pouco.

Passados dois dias do contrato, o portão se fecha suavemente atrás de si. Ele dobra o papel e põe no bolso traseiro da calça. Foi um sonho estranho, mas, ao acordar, conseguiu decorar o poema, ele corre. Uma fresta de luz solar ainda teima em se esconder. Uma queimada no braço, isso não o faz esquecer das palavras que sonhou.
Pichações, e mais drogas. Um mendigo terminal diz que o artista das ruas é uma pessoa muito bonita. Devaneios de um bêbado. No tempo de Scott... Deixa prá lá, que piegas.

P usava uma jaqueta de couro, ela a fecha até o pescoço – não sente frio há muito tempo, só que não é muito normal alguém andar pela noite afora com um taco de beisebol à amostra. Alguns metros caminhados e um click seco e metálico. O tato frio em sua nuca.
_Está atrasado, P. Isso não é bom.
Ele vira-se lentamente, sem movimentos bruscos.
_Eu disse três dias apenas. Se eu soubesse que você não cumpria sua palavra, teria chamado um bêbado qualquer do Delamaday. - Instigo, atrás de algum traço bestial.
_Mas não chamou. - Responde P. _ Vai sujar de sangue. - Ele mostra a revista, entrega-me e ainda conta o final.
_Toma duzentos e cinquenta e compra roupas novas e eu já conheço a história. Sou um colecionador.
_Tive que matar um cachorro por uma revistinha.
_A morte se torna corriqueira depois de certo tempo.
_Preciso que você me dê o endereço e o nome.
_Procure neste endereço alguém chamado Raz, ele tem as pistas para encontrar seu pai.
_E Cacatrua? O que tem a me falar?
_Paralelas se cruzam onde menos se espera.

Sou um colecionador. Mais uma peça em meu souvenir. Mas, tudo tem seu preço.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Aventuras em DeD - Prólogo 2 - Corpos Rastejantes

Antes leia: http://roidesmariola.blogspot.com.br/2017/01/aventuras-em-ded-prologo-1-o-dilema-de.html



Era um tempo em que os pássaros gorjeavam livres sobre flores e campinas verdes. O trotar dos cavalos caoticamente melodiosos e as tardes tenras. Naquele tempo. Agora, o gosto acre na boca, a lágrima rola quente, limpando a poeira de seu rosto. Aprendera muitos sentimentos de seu estágio terrestre, um novo: dor.
Lizardy, uma jovem abençoada com a magia da lua, tem todas as criaturas vivas bem próximas ao coração. Habitando nas estrelas junto ao seu povo, faziam uma conexão com todos os seres vivo da terra, curando os doentes e feridos que confiavam no poder do universo. Em seu coração ela sentia uma enorme necessidade, de ir para o mundo que tanto protegia e sonhava em um dia se tornar humana.
Um ancião das estrelas, sentindo o grande desejo de Lizardy, deu a ela uma missão que mudaria a sua vida. A jovem transformara em um animal terrestre, e para ver de perto o sofrimento e necessidades humanas, deveria arrastar seu corpo pela poeira da terra que tanto amava. Uma única condição: não usasse seus poderes para ferir nenhum ser vivo, apenas para ajudar os realmente necessitados.
E assim foi feito. Lizardy veio ao mundo dos mortais para proporcionar a paz e a justiça. Vivendo como um lagarto, ela aprendeu muito sobre as criaturas da terra, conheceu todos os sentimentos e atitudes ao seu redor. Enquanto caminhava em um bosque encantado, conheceu várias pessoas e começou a fazer parte desse grupo, onde viveu por anos ajudando-os.
Até que um grupo de assassinos mercenários movidos por seus desejos ambiciosos atacaram o bosque encantado. Lizardy se viu nos rastros de uma guerra humana. Uma cena terrível: o terreno obscurecido pelas formas dos soldados feridos e abatidos suplicando alguma ajuda divina. Ela se aproximou a fim de ajudar, usa todas as magias conhecidas por ela, mas não era suficiente. Sem forças começou a implorar ajuda aos deuses das estrelas e algo dentro dela aconteceu. Sua essência vital foi derramada sobre todos os feridos, carregada em fios invisíveis de magia. Uma forte luz vinha do céu e caia diretamente sobre Lizardy. A sensação era, ao mesmo tempo, toxicamente e esplendorosa. Ao fim de seu delírio, estava em deleite quando se viu transformada. A pele verde deu lugar a um corpo alto e esguio, a mesma forma dos humanos que jaziam aos seus pés.
Ela sentia o poder pulsando em todo o seu corpo e o usava para curar as feridas dos inocentes, mas para cada ferida que ela fechava, outras eram abertas. Lizardy percebeu que teria de lutar para salvar seus amigos. As estrelas gritaram em sua mente, dizendo a ela para que não usasse seus poderes para ferir. Ignorando o aviso, ela atingiu os opressores com um lampejo brilhante de luz, dando um fim a guerra.
A forma celestial que pulsava em Lizardy desapareceu e as estrelas se emudeceram. Ela ainda sentia o poder do universo em si, mas havia sacrificado sua imortalidade e as orientações estrelares. Com seu grupo morto, Lizardy seguiu em frente no mundo dos mortais, com o voto de curar os feridos e proteger todos os indefesos.


Por Lizardo

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Noites Nefastas - Capítulo 2 - Solidão

Antes leia: http://roidesmariola.blogspot.com.br/2017/01/noites-nefastas-capitulo-i-quando-os.html



Naquele tempo, Ozzi voltara apenas para si e para a floresta que resolvera proteger. Uma confusão de proselitismo e nostalgia. Ele, na verdade, era um ser perdido em tantas coisas estranhas. Não que ele vivesse às margens de Yacov ou de Raziel, simplesmente não se importava com as mazelas do mundo. Precisava de um caminho, uma razão para viver. Foi quando apareceu Gangre.
As noites estavam tediosas. O sangue nas veias corriam livremente e puro. A Máscara nunca esteve tão bem protegida e até mesmo os temíveis lupinos não davam o ar da graça, e quando raramente apareciam, estavam dispostos à diplomacia."Então, por que viver nestes tempos?"
As respostas surgiram. Um encontro às escuras na Praça Elisium. "Encontre um homem. Seu nome é Gangre", disse a voz que saía temerariamente por debaixo do roto capuz.
_Mas onde eu o encontro? E o que ganharei com isso? - Indaga Ozzi capciosamente.
_Na Mata Fenrir. Numa caverna abaixo de um relevo em forma de lobo. É fácil encontrá-la.
_E o que eu ganho? - Insiste.
_A Mata Fenrir.

As palavras que gostaria de ouvir. Nem todo o ouro do mundo poderia comprar a sincera companheira solidão. 
 
_Vamos dar uma passada no Paul's Bar. - Anuncia Ozzi laconicamente.
_Não gosto da cerveja de lá. - Responde Yacov, tendo o silêncio como resposta. _Ainda se tratando da heroína? - Insiste.
_Não precisa me lembrar. Não. Não é isso. Na verdade um trabalho.
_Você, Ozzi, atrás de trabalhos?
Mais uma vez, o silêncio.
_Antes disso. Huumm, como posso te falar...Antes de seu trabalho, Ozzi...
_Lily e Zilu?
_Sim.

O prédio ficava na zona portuária. Um antro de prostituição, drogas e crimes sem sentido. Quebrando a esquina, o cheiro de pólvora e sexo eram vívidos. O portão range atrás dos dois, o cheiro de urina impregna em suas narinas, um bate-estaca trance marca o ritmo em um apartamento, uma puta ainda com a agulha presa no braço e o corpo pendido de cabeça a baixo pelas escadas.
No meio disso tudo, o oásis chamado Lily e Zilu.
Toca a campainha e um claque de chaves. Uma mulher se revela. Vestida apenas por uma toalha, seu cabelo Black Power cheirava a shampoo de lavanda. Pele negra e lisa feito uma pérola. Boca carnuda, olhos negros e misteriosos como o universo. Seios fartos e corpo torneado por exercícios físicos
_Ops. A toalha escorregou...
_Que isso Zilu, não precisamos disso - Sussurra Ozzi em seu ouvido. Ao fazê-lo, sente o pulsar do coração de Zilu. Sua língua áspera percorre o pescoço dela, uma mão sobre as covinhas de Vênus da negra e a outra puxa com violência seus cabelos crespos. Uma miscelânea de dor, prazer e dor novamente quando Ozzi crava cirurgicamente seus dentes na carótida da mulher. O sangue como um jato, atinge a garganta de Ozzi, enchendo-o de vida novamente.
Zilu abre os olhos, olhos agora perdidos como se hipnotizados. Ozzi planta lembranças mentirosas em suas memórias. "Que pena viver uma mentira, minha doce menina". Quando acordar, ela vai se lembrar de uma noite tórrida de sexo e gozo que nunca existiu. Zilu cai adormecida em seus braços, sendo colocada com delicadeza no sofá.

Yacov não vira esta cena, ele adentra mais um pouco, precisamente, ao quarto de Lily.

Lily adormecera feito anjos de Botticelli. Jogada a desalinho como veio ao mundo. Um travesseiro sob a cabeleira ruiva e outro sob as coxas brancas. A femoral pulsa suavemente. Yacov enterra seus dentes com delicadeza e virilidade na virilha da mulher. Lily geme em um sonho feérico. O sangue jovial e quente de Lily escorre em uma lista pelos lábios de Yacov. A ninfa nem acordou. Ela se vira na cama, agora de bruços, suas nádegas a amostra. "Que pena que não possuo desejos carnais, Lily, além disso me alimentei o necessário por essa noite.

_Nunca entendi por que elas moram nessa espelunca. - Yacov rompe o silêncio enquanto caminham.
_Segundo Zilu, elas estão em um projeto de pesquisa muito importante. Não dei muita bola enquanto falava.
_Não importa. Enquanto elas forem nosso rebanho, nada acontecerão a elas.
_Então deveremos nunca mais voltar.

Assim partiram para o Paul´s Bar, a pior cerveja da cidade.