segunda-feira, 20 de março de 2017

Pólvoras e Sangue - Capítulo 4 - Liberdade Eterna

_Levanta, pai. Eles chegaram.

O homem cruzara todo o vale e montanha a pé. Vestido em rota malha outrora branca, agora marcada pelo amarelo da poeira. Ao seu lado, sua companheira.

_Papai está lá dentro. - Diz a menina, assustada. Debaixo do capuz, olhos negros e finos lábios vermelhos como um corte preciso de navalha.
A desgraça parecia que rondava aquela família. Há dois anos, o pai voltara da guerra e as mazelas da guerra continuavam presentes. A morte da mãe e a doença do pai agravara.

A menina, única filha, cuidava do pai e da pequena roça que mantinham com tanto sufoco.

Ele entra. A mulher segura as mãos da menina.

_Aconteça o que acontecer, não deixe ninguém entrar. - uma voz gutural vinda de dentro do capuz.

_Mas seja breve. Nosso tempo está acabando.

Ele entra no velho casebre. A noite sem estrelas e sem lua. O silêncio mortal. O moribundo se agarra em uma linha sensível de esperança: aquele curandeiro levantara sua barraca no centro da pequena vila que circundava o monte. Seus olhos negros e fala lacônica. Ele inicia uma oração em uma língua desconhecida.

A menina, encolhida. Rosto escondido entre os joelhos. Até que tudo acabou: O homem de malha branca respingada de sangue. Olhos vermelhos e boca vermelha de seu alimento viscoso.

Ela. Olhar penetrante.

A menina desvencilha-se das mãos firmes da mulher. Adentra a casa. Um grito sufocante.

_Mas vocês disseram que nunca perderam ninguém. E, agora meu pai está morto

_E não perdemos. Demos a ele a liberdade eterna.

Ele pega a mão da menina. Um toque suave e frio:

_Vamos. - diz Iaquin.

domingo, 19 de março de 2017

Noites Nefastas - Interlúdio -"Mentes e Vícios"

Antes disso, leia: 
http://roidesmariola.blogspot.com.br/2017/01/noites-nefastas-capitulo-2-solidao.html




Theodoro insiste em me dizer que sou um pai deveras protetor, e que beiro o sadismo às vezes. Tenho que admitir que, como falei anteriormente, enquanto vivo, eu era um estudioso dos vícios humanos. Tudo bem, meus objetos de estudos eram os mortos, sim. Mas o que quero dizer é que há um labirinto lá fora, meu amigo. Um labirinto que faz nos acreditar que sempre percorremos o caminho correto. Sem mais, Theodoro. Você não sairá de casa esta noite, todavia, peço que dê só este passo. Apenas mais um passo.

Theodoro. Eu sei que você conhece a sociedade humana, suas leis dinâmicas, físicas e políticas, seus vícios e necessidades. Em certos aspectos, você conhece até a moralidade dogmática e ideológica dos homens, e por isso essa vontade em sair por aí. Esqueça! Você não é mais humano. Somos monstros; não importa a trilha que queira seguir, não importa o remorso latente e a sangria desse remorso latente. Ainda seremos monstros. Ouça, quando você menos esperar, a Besta tomará conta de si. A menos que você tome conta dela primeiro. Como? Ouça-me atentamente, filho.

Primeira coisa. Você se lembra daqueles cadáveres frios em que trabalhávamos noite e dias a fio? Você é um deles agora. Você está morto! Sim. São os dons malditos nodistas nos mantem neste estado de pós-vida. Corpos animados, não muito diferentes dos brinquedos Giovanis. Quer uma prova disso? a quanto tempo você não respira? Esta inspiração forçada de agora comprova o que eu disse. Você tem que se lembrar de respirar, de usar o seu sangue para se corar, manter a pele rosada. Você tem que se lembrar de piscar, um simples piscar de olhos. 

Quando você se esquece de fazer estes pequenos detalhes, a Besta acorda gradativamente. Lembre-se sempre em simular um bocejo, um cansaço físico, até mesmo uma ereção e um ato sexual. Sim, caro amigo, você pode transar. O que requer muito sangue gasto, percebe? Você não sente mais a necessidade fisiológica do sexo, talvez a necessidade sócio psicológica, talvez. Mas vale a pena este gasto desnecessário de sangue? Sim. Alimente sua humanidade com atos humanos.

Naquele dia no bar, a moça de cabelos vermelhos se encantou por você, até perceber o quão frio estava. Não digo de seu tato, digo de emoções. Finja, mesmo que seu fingimento não seja perfeito. Você nunca mais conseguirá sentir com perfeição tais sentimentos, você nunca mais sentirá um orgasmo e seu prazer reduzirá ao simples fato de se alimentar. Adeus aos verdadeiros amigos, amantes e sonhos. Este é o caminho da humanidade que lhe falei. O isolamento dos humanos fará com que se isole de seu própria humanidade


Chega por hoje. Tudo bem. Deixarei você se divertir essa noite, mas não esqueça de resolver este paradoxo: fingir também é perigoso. A Besta na confusão sentimental encontrará uma fresta.



quinta-feira, 9 de março de 2017

Navegar É Preciso #1

Como diria o grande Pompeu (sim, o Pompeu, não o Pessoa), "Navegar é preciso, viver não é preciso", segue links de nosso grandioso mundo do RPG. Portanto, cruzem o umbral, invoquem o portal ou simplesmente cliquem no link:

Para downloads de materias diversos:


Exemplos de aventuras:




Diversos. Mundo Nerd e Geek




Faltou algum aí? Mande para nós. 
Quer ver seu nome aqui? Mande para nós.





quarta-feira, 8 de março de 2017

Linhas de Um Tempo Esquecido - Capítulo 3 - Histórias Estranhas


Tufail e eu ainda estamos alojados nessa taverna que mais parece um estábulo. Não que seja exagero de minha parte. O cheiro de cavalos adentram pelos quartos, línguas se misturam visto o odor de tantas nacionalidades e a falta de higiene. Tufail parece nada se importar. Na verdade, ele se mantém sempre alimentado. Como consegue? Eu, prefiro morrer por inanição a sujeitar-me a este tipo de alimento. Mesmo assim, aguento.  Tudo pelo plano.
No canto da taverna sentados, Tufail e eu podemos perceber entre as fumaças bêbados e prostitutas romanas. Risos altos, assédios e estupros. Cavalos relincham lá fora. Estou quase desistindo. É quando minha sorte muda. Um homem de trajes nobres e botas sujas entra na taverna: "Precisamos de pessoas para trabalhar para o Conde Siouxie. Paga-se bem". O homem que anuncia o contrato era de bela aparência, vívido e repleto de arrogância. Sua aura vampírica pulsa de vida. Ninguém aceita o trabalho. Tufail olha para mim e, depois de dias, ele sorri.


24 de abril, 897

Resolvemos aceitar o trabalho. O homem nada fala quando perguntamos a ele sobre do que se trata, ele responde laconicamente que Siouxie nos dirá o que for necessário. Resolvo, então perguntar se é longe o castelo desse conde. O nobre cocheiro volta-se a mim e diz que se não quisermos o trabalho, poderemos voltar para pocilga em que estávamos. Entre a cruz e a espada, fico com a pena.   
Os cavalos estão fatigados e sangrando, mas algo faz com que misteriosamente prossigam. O silêncio e a passividade de Tufail está cada vez mais repugnante. Será que só eu percebo o dia amanhecer? O cascalho rompe com o trotar dos animais. Resolvo olhar pela janela da diligência. Meu Deus! Não há cocheiro. Meu Deus! As rodas da carruagem saem do caminhos.


25 de abril, 897

Não conseguia de fato terminar a aventura de ontem. O sol nascente indicava a morte para nós e Tufail nada se importava. À minha esquerda, a morte pelo sol, à direita, uma mata densa e agourenta, à frente, um castelo de arquitetura gótica. Suas altas torres rompem um céu já claro pelo dia. Mas que diabos é aquilo! Gárgulas vivas?! Não mais. acho que estou ficando maluco. Tenho a certeza de que aquelas gárgulas de pedra estavam a se mexer. olho para Tufail a procura de algum traço de surpresa. Nada
As portas do castelo se abrem num ranger de  metal velho. Um ser repugnante em velhos trajes que outrora foram nobres. Sua pele a desmanchar-se me faz acreditar que ele tenha fugido de uma fogueira recentemente. Furúnculos em seu rosto pútrido se rompem em pus.  Dentes negros e maxilar à amostra. Uma caveira andante, na verdade. Quando nos aproximamos, pude notar em sua lapela, uma rosa vermelha, uma linda rosa vermelha que há tanto não vejo. Que contraste.
"Entrem", ele diz. Aceitamos a proposta. As portas se fecham atrás de nós. Deixando a morte lá fora.


Uma folha toda manchada de sangue. Algumas palavras como "Tufail, caixão, Siouxie, contrato, traição e Estevão eram compreensíveis. Outras nem tanto. A verdade é que a falta destas páginas de sangue  nada muda a compreensão da  história. Continuemos então.


30 de abril, 897

Recordar é viver. Nos disse uma senhora sem dentes e que, por milagre, mascava plantas. Tufail me disse que aquilo era uma espécie de planta alucinógena. “Mas onde encontraremos o príncipe, minha senhora”, lembro-me que fui eu quem rompeu o silêncio. “O príncipe é fácil de ser encontrado, ele mora no pé daquele morro. No velho casarão”, a velha dizia. “O problema é achar a menina”.
Que menina, meu Deus! Essas histórias estão cada vez mais estranhas.
A velha cuspia no chão o resto das folhas mastigadas. Um unguento com cheiro e aspecto horroroso, parecia-me que a maldita ruminara um pântano.
_Eu vou contar para vocês a história de Cristiane. A menina que nunca mais acordou.


Um momento é necessário, queridos leitores. Primeiramente, não acredito que a história que se segue é fielmente à que fora ouvida por Hastan. Não é uma transcrição ipsis literis do que os dois vampiros ouviram naquela noite. Pensando assim, e ao ler esta página novamente, resolvo voltar as minhas pesquisas. Voltar aos velhos livros e às velhas lembranças daquela noite. Sim. A velha continua viva.  

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Pólvoras e Sangue - Capítulo 3 - Uma Fuga Planejada

Carla desliga as pressas seus computadores, corre para a porta. Ela volta, risca rapidamente em um papel a sua frente vários números e o guarda num envelope. Tecla alguns números decorados no celular, uma mensagem aparece, ela espera, e mais outra, “nem tudo está perdido”. Ela apanha a chave de sua Ducati Streetfighter e sai pela porta dos fundos não antes de ouvir alguém arrombando a da frente. 
 
Não há tempo, não há tempo”, ela repete para si mesma. Um Vectra 2.6 liga o motor quando ela passa com sua motocicleta. “Farei eu, meu tempo”.

O sol acabara de se pôr. Pelas ruas de Brasília, ambos automóveis partem em disparada. Nenhum pode exceder os limites de velocidade. Será um jogo de quem aguenta mais. A Esplanada dos Ministérios, o Vectra em seu retrovisor. Eixão e Asa Norte, uma passagem de pedestres subterrânea, “aqui eles não poderão me seguir”. Alguém a xinga. Por um tempo, Carla acredita não ser perseguida mais. Por um tempo…

Pela DF-140, o Vectra atrás. “Esses malditos devem ter plantado um sinalizador em minha moto”. Ela ganha a GO-521, sentido Luziânia, uma estrada de chão. Nada de bom para sua esportiva, cascalhos voam acertando a carenagem e a lente de seu capacete.
Mesmo escondido pela poeira e pela noite, ela sabe que o carro ainda está em sua cola. Um disparo de uma arma de fogo, ela acelera ainda mais, “preciso ganhar tempo”. Ela atinge a velocidade máxima. Uma plantação de soja, então resolve despistar, quebra a direita e invade a plantação.

Um velho sobrado abandonado à frente. Carla encosta sua moto aos fundos. Um molho de chaves, depois de várias tentativas, uma cozinha se revela. Após ter examinado todo o ambiente, ela tira do bolso da calça um envelope branco e deita no chão por debaixo de uma mesa, ali, ela o fixa com pequenas frestas de madeira. “estará a salvo, por enquanto”.

Sobe para um dos quartos, fotos nas paredes, a levam a um tempo reconfortante. Ela volta de sua fugaz introspecção – uma varanda com estacas detalhadas de madeira. Ela saca sua pistola e se prepara para atirar. É viver ou morrer.

Longe, o carro rasga a plantação, para de frente para o sobrado depois de uma freada brusca, da poeira, três homens saem. Ela usa novamente o celular. Disparos de Uzis. “Por que eles têm Uzis e eu uma Ponto Quarenta? Dá pra aguentar”. Por um momento, ela acredita que eles a querem viva, muda de ideia. É um extermínio. “Será que conseguirei falar com Stephanie?”

Dois homens correm para trás do sobrado. Em pouco tempo estará cercada. “Devo parar de brincar”, ela pensa. Um disparo acerta um pneu seguido por outro que estraçalha o para brisa e a garganta de um. Sangue nos vidros. Por um momento os disparos cessam, por um momento.

Passos vindos de dentro do sobrado. Não se ouve mais, o som das hélices de um helicóptero o abafa. Ele pousa entre ela e o carro. Mais dois que estavam no carro caem no chão enquanto os outros dois que vinham por detrás disparam. Ela pula a janela, uma bala zune em seu ouvido. No salto, ela sente o tornozelo esquerdo, mesmo assim, ela corre. O helicóptero dá a partida e ganha novamente os céus.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Linhas de Um Tempo Esquecido - Capítulo 2 - Início

O que se segue é o resgate de memórias e de velhos diários escritos por meu primeiro mentor, o Senhor Mímir Abmael Hastan, o mesmo que outrora eu chamava de pai. Um quebra cabeça de informações de peças sobrando. Todo esse resgate foi possível quando um velho professor do qual não me recordo o nome, ensinou-me a fina arte da leitura mental e dos traços impressos em objetos inanimados. Embora, ao passar dos anos, as verdades surgiam e pesaram, nunca deixei de procurá-la. Deverei, então, contar a história do ponto em que conheço para o ponto de partida.
Tudo começou quando encontrei em um baú de Hastan uma caderneta velha dos tempos em que se escreviam com penas, mas hoje vejo que a primeira pista está ali. Pela caligrafia, pertencia a meu pai. Nela, uma história que nunca entendi, aliás não dei muita atenção. Depois que tio Tufail nos deixou e partiu mais uma vez para exilio, Hastan resolvera viajar pela Europa. Eu entediado, Morpheus reclamando de que não brincávamos mais com os cavalos... Tempos difíceis. Desculpe-me. A caderneta recuperei com muito sangue e ouro, mais sangue do que ouro e linhas que merecem um livro próprios. O que importa é que agora passarei os relatos ipsis litteris. Algumas páginas foram rancadas. Outras rabiscadas. Outras, manchadas por algumas lágrimas caídas de meus olhos.




15 de abril, 897
Ouvi rumores de um assamita interessado em mistérios de nossa raça. Estranho isso vir de alguém de sangue tão fervoroso. Meus estudos acerca do ocultismo de certo, esbarram-se em fragmentos preconceituosos. Os mouros expulsos por Pelágio das Astúrias parecem que se espalharam pelo resto da Europa. Esse assamita frequenta as tavernas próximas à Verdun, ele porém não se interessa muito por sangue, visto que as pessoas ali estão saudáveis. Será que encontrarei alguma pista que me ajude em minhas questões religiosas?


18 de abril, 897
Cheguei a Verdun a dois dias. A mistura de raças e cor de pele chega a enjoar. A rota comercial e a gritaria diurna não me deixam dormir. Cheiro de cavalo e estrume invade meu nariz e me deixa tonto. Na taverna abaixo, um barulho ensurdecedor. Foi necessário esse esforço. Sento-me a uma mesa de frente a porta e espero o vampiro mouro adentrar. Não demora as portas se abrem, pele escura e roupas escuras, roupas não, trapos como se fosse um tecido inteiro enrolado. No rosto, uma marca, parece-me letras islâmicas, olho negro. O outro, uma bandagem cobre o que julgo uma órbita vazia. Cheiro almiscarado no ar. É ele. Ele se senta, faço um sinal.


Aqui, uma folha rasgada. Mas continuemos, na próxima, o contexto será de fácil entendimento:

Continua em:
http://roidesmariola.blogspot.com.br/2017/03/linhas-de-um-tempo-esquecido-capitulo-3.html





Linhas de Um Tempo Esquecido - Capítulo 1 - "Eu Sei Quem Somos"

Eram vastos os corredores e altas as janelas do castelo. O sol entrava manso, refletindo imagens dos santos dos vitrais no frio e duro piso de mámore, as gárgulas já tinham perdidos suas feições grotescas, tornando-se gradativamente uma massa disforme de granito, e todos dormiam. À epoca, os mordomos iam e vinham como um estalo de dedos, mas a figura refletida nos espelhos permaneciam sempre inócua. As folhas das velhas árvores caiam e floriam como se fosse no mesmo dia, as caçadas transformavam-se em lendas, lendas em contos e contos em piadas, e todos dormiam. Eu não compreendia ainda as nuances da mortalidade tampouco o mistério do passar dos tempos. Anos se passaram (muitos na verdade) e acabei por envelhecer. Foi quando Hastan voltou de sua longa viagem e alguns acordaram.


Hastan trazia em sua bolsa tiracolo livros e brochuras repletos de desenhos estranhos e letras de alfabetos nunca vistos. Não me estranhei com isso – era sempre assim as suas voltas, o que estranhei na verdade foram os objetos. Livros e brochuras no lugar de sensíveis papiros que se desmanchavam com o tempo e principalmente com o suor em sua testa e com seus olhos de medo. Quando ele voltou, eu já havia recuperado das memórias dos velhos mordomos lembranças vividas há décadas, mas esta é uma outra história. Quando Hastan voltou, partimos.


Durante anos privaram-me de meus vitrais, janelas e gárgulas, de meu piso de mármore, do velho bosque e de seus demônios. Privaram-me de meus amigos. Em troca, ganhei ratos, piratas, doenças, toscos caixotes de madeira e solidão. Hastan dizia que era necessário, afinal, eles acordaram. Alguns nomes eu decorei, outros fiz questão de esquecer, tantos outros naufragaram. Já, os melhores navios aportavam em grandes burgos. Até que Gengis Khan nasceu e morreu e a Morte Negra flagelou a Europa. "Não é nossa culpa", dizia Hastan quando meus olhos pesavam sobre os seus. "então por que temer?", eu perguntava. Eles acordaram.


Morpheus sempre reclamou de minha falta de atenção por sua pessoa. Também pudera, ele escarafunchava papiros antigos e diários de alquimistas como traças. Seus olhos levantavam apenas quando tio Tufail trazia de suas expedições orientais "presentinhos" excêntricos, até que ele resolvera parar de reclamar. A verdade é que passado quase um século, ouvi novamente a voz de meu irmão Morpheus. Essa também é outra história. Lembrei-me de Morpheus porque ele representa a ignição principal desta história.


Sem mais delongas e passado este réquiem, lançarei meu último recurso para entender as primeiras palavras de Morpheus em anos e suas últimas para comigo. "Eu sei quem somos", ele disse naquela noite em que entrara em meu quarto. Assustei-me a princípio, e enquanto se virava, deixava o quarto e iniciava novamente seu silêncio, eu entendi o que representava suas palavras. Por anos meu irmão Morpheus estudava nossa espécie. Por ele e por mim. E eu olhava o tempo passar pela janela. Ele fazia por nós e eu o odiava por ser daquele jeito. Ele sabe quem somos e eu deverei percorrer os mesmos caminhos por ele percorrido e, assim, ouvir sua voz novamente.